Capitulo I
Lenda do Lobo da Tapada da Cegonha
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Tapada da Cegonha – Germil
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Reza
a lenda que em meados do século XVIII num final de dia gelado do mês de
Fevereiro, um homem de meia-idade habitante de Germil (na qual desconhecemos e
pouco sabemos sobre a personagem), decidiu passar uma noite na Tapada da
Cegonha para poder dar conta do centeio pois estávamos na altura das
sementeiras de inverno. O homem com receio que os pássaros lhe devorassem
durante a noite as preciosas sementes, semeadas a mão e com muito esforço e
suor, decidiu pernoitar numa das extremidades da tapada ao relento, coberto por
uma fina manta de linho que lhe dava a protecção necessária e até algum
conforto para uma noite que se esperava longa e surpreendente. De madrugada e
enquanto o homem iniciava a dormitar o ambiente em redor da sua manta de linho era
ameaçador. Ao espreitar por um dos cantos da sua manta tudo a sua volta lhe
parecia desconhecido devido a escuridão que se fazia sentir e só o cheiro da
terra e das frescas sementes o orientaram e assim embalado pela noite cerrada e
sentindo-se no lugar certo acabou por adormecer.
Sorrateiramente,
sem que o homem que dormia como um cordeirinho se apercebe-se, um lobo de pelo
escuro como a escuridão que se fazia sentir, calmamente e inocentemente deitou-se,
acomodou-se e encostou-se a manta de linho que já a alguns quilómetros de distância
farejava o seu calor numa tentativa de se poder abrigar do frio. E assim, num
curto e imaginário espaço de tempo, o homem e o lobo, pernoitavam juntos e inconscientemente
num vale em que o silêncio do conforto só a eles lhe pertencia.
De
repente, o homem acorda. Sente um vulto pesado e quente nas suas sacrificadas
costas simplesmente separadas por uma fina manta de linho. Quando o homem se
apercebe de que realmente algo de estranho estava a acontecer levanta-se, sente
um movimento brusco e escuro, o lobo tinha acordado. O lobo sem
jeito e desorientado com a imagem distorcida de um homem erguido, desata a
correr com toda a força, com a força de um lobo e, desapareceu tal como apareceu
neste vale ainda silencioso. O homem não queria a creditar mas também não
esperou e mais rápido que o lobo também desatou a correr, não como o lobo
silenciosamente mas aos gritos pensando que estaria a ser perseguido pelo vulto
escuro que se tinha acomodado à sua fina manta de linho.
Bem
ali a beirinha da tapada da cegonha e continuando em fuga por entre pedras e
calhaus o homem finalmente encontrou a calçada do Varzeiro local onde a
escuridão se tornou bem clara para um homem que desesperadamente corria a
procura da segurança na aldeia que o viu chegar a este mundo.
O homem ainda não se sentia seguro. Até chegar a aldeia ainda faltava um par de quilómetros e foi
quando numa curta paragem para poder recuperar o fôlego, uma matilha de lobos liderada
pelo lobo maestro de vulto escuro, uiva com toda a sua força e garra envolvendo
o vale numa sinfonia nocturna onde o homem como único espectador deste espectáculo
silenciosamente chora de vergonha pois já as portas da aldeia de Germil o homem
desagua pelas calças abaixo chegando a conclusão que tinha dormido com um lobo.
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| Photo Source katwalkdesigns |
Narrativa de João
Pereira, habitante de Germil.
Texto e arranjo de
Carlos Moreira











