Hoje dediquei uma manhã para tirar fotos as Poças de Germil. Não sabia que existiam tantas e fiquei deliciado com o que vi e pude registar. Ainda tive a oportunidade de me refrescar nas Poças de Bem Feito junto ao Penedo Rachado pois o calor apertava.
 |
| D. Maria de Fátima em processo de rega da sua horta |
Este ano a partilha de água para regadio em Germil iniciou um pouco mais tarde que o habitual devido ao mês de Junho ter sido chuvoso, sendo assim, os habitantes de Germil andam em grande actividade de regadio desde que nasce o sol até a noitinha. O sistema de partilha de água em Germil ainda é praticado como os antigos faziam, método este que remonta a séculos atrás.
 |
| Levada das Poças da Relva |
Em conversa com os habitantes de Germil tive a oportunidade de saber como funciona o sistema de partilha de água mas mesmo assim queria saber mais e através de uma pesquisa na Internet descobri o processo em detalhe na qual passo a partilhar. Texto de Carlos Moreira
 |
| Poças da Relva |
Prática do direito à água
O turno de água é organizado a partir de regras simples,
cuja combinação acaba no entanto por desenhar um rol de ordenamento dos
direitos que é Os que “Sabiam” e os que “Andam Baralhados”. A primeira regra é que o perímetro de regadio não é
delimitado. Cada um pode regar as terras que bem entender com a sua fatia
de água e para impedir que haja conflitos entre a rega e o funcionamento das poças para o uso dos
quais, também existe um turno.
 |
| Poças da Relva (já vazia) |
O período de livre regadio (torna-torna)
Fora da época da rega, ou seja, do S. Miguel até ao S. João,
o uso das águas da levada é livre. Mais exactamente, rege o sistema do
torna-torna, o que quer dizer que em teoria a primeira pessoa a chegar pode desviar
todo o caudal para o seu campo, pelo tempo que quiser. Qualquer um pode
utilizar a água, e não só os que têm um direito estabelecido durante a época da
rega. O sistema funciona muito bem enquanto o caudal é na prática tão abundante
que pode ser dividido e utilizado por várias pessoas ao mesmo tempo, sem
que uns tenham de se preocupar muito com o que fazem os outros. Ainda
funciona mais ou menos enquanto as necessidades de água não são muitas e
enquanto não é muito grande a tentação de cortar a água a quem já está a
regar.
 |
| Acesso as Poças de Deguimbra |
 |
| Poças de Deguimbra |
Mas logo que a água começa a escassear fica bastante
complicado regar correctamente uma parcela, o direito teórico de quem
está a regar sendo então raramente respeitado. Isso acontece sobretudo nos
meses de Junho dos anos quentes e secos: as lavouras e sementeiras do milho são
adiantadas, ao mesmo tempo que o caudal da levada é reduzido. Nessa altura,
passa a ser necessário vigiar o percurso da água de poça em poça, nalguns casos com três ou quatro pessoas. As parcelas mais longínquas não podem por isso ser regadas, o
que constitui também uma forma de regulação. Junho é portanto o mês de
maior tensão: é a época da primeira rega, da qual depende em parte a
colheita, ou seja, até há bem pouco tempo, a esperança de não passar fome.
 |
| Poça de Deguimbra |
A partilha
No dia 24 de Junho, as águas são partilhadas, o que significa
que o turno de água passa a ser aplicado, e que só os que têm um direito de rega
podem utilizar o sistema. Tem lugar ao pôr do sol (sete e meia da tarde na hora legal). Caso a água já faça falta
antes desta data, há a possibilidade de antecipar a partilha desde que várias
pessoas o queiram de alguns dias a, raramente, vários meses. Neste caso, as poças podem sempre ficar com a água até
ao dia 24 de Junho.
 |
| Penedo Rachado
|
 |
| Poças de Bem Feito |
 |
| Poças de Bem Feito |
Acontece regularmente que pessoas menos atentas ou
que não moram na aldeia fiquem surpreendidas pelo adiantamento. O turno de
água mantém-se sempre até ao dia 29 de Setembro e, não há memória de
alguma vez ter sido noutra data. Nos Outonos mais secos, o direito é
utilizado até ao último dia, nem tanto para o milho, já em vias de
amadurecer, mas para favorecer o crescimento da erva debaixo dele. Num Outono
normal, muitos regantes deixam de utilizar o seu direito, que outros passam
a aproveitar, desenhando-se uma transição gradual para o regime do
torna-torna.
 |
| Poças da Ladeira |
 |
| Poças da Ladeira |
A gestão social do turno de água
Só por si, a descrição da organização do turno de água não
permite perceber como o sistema funciona na realidade. Conhecendo as regras,
somos ainda incapazes de saber que forma se toma o jogo, como em qualquer
desporto. É de lembrar aqui que as regras não são escritas. Não há listas de regantes, nem horário escrito completo, nem
regulamento, nem nenhum encarregado de fiscalização. Nessas condições, é importante explicar como cada um
consegue perceber quando e durante quanto tempo pode regar,
e como o sistema consegue funcionar, cada um conseguindo usufruir da sua fatia,
transmiti-la ou vendê-la.
 |
| Poças de Vilares |
As conversas
Um aspecto importantíssimo do funcionamento da partilha, que
aqui só pode ser brevemente evocado, é constituído pelas conversas a seu
respeito, nitidamente motivadas por muito mais que a importância económica da
rega de hoje em dia. Os casos de pessoas que perderam o seu turno são
frequentemente mencionados. Na realidade, tais acontecimentos devem ser
muito raros, pois as suas consequências são graves, tanto para as plantas como
para a reputação da pessoa. É aliás por essa razão que tais anedotas
tomam tanta importância nas conversas. Falar nelas permite lembrar essa
hipótese e ficar mais atento. As tentativas de cortar a água a contratempo,
voluntárias ou não quem sabe? Também são contadas vezes sem conta e em voz
bem alta, como uma forma de afirmar o seu direito, na falta de
documento oficial para tal efeito. Temos indicações de que noutras circunstâncias as conversas podem ser mais
ofensivas.
 |
| Poças do Real |
Desafios e entendimentos
É absolutamente generalizada, na antropologia da água, a
interpretação do funcionamento dos sistemas de regadio em termos de
conflitos, pequenos e grandes, como sendo um conjunto de outros
comportamentos, a expressão da defesa da honra da casa e da pessoa. Não há
dúvida de que isto é correcto. De facto, no Portugal rural, a água foi durante
muitos anos a causa principal dos homicídios. Tamanhos casos continuam a
aparecer, sempre em primeira página dos jornais. Num filme recente (“O Fim do
Mundo”, de José Maria Grilo, 1992) o actor José Viana representa um velhote
que mata a vizinha por coisa de uns minutos de rega. Mas este aspecto
impressionante da gestão social da água acaba por eclipsar por completo um
outro aspecto fundamental destes sistemas, constituído pelo que se podia chamar
entendimentos. O entendimento é de facto central para o bom funcionamento de um
sistema de regadio. Se os conflitos se multiplicarem, o sistema pode até estar
em perigo. Por exemplo, se ninguém se entender acerca da
limpeza, a levada deixará de funcionar, ou se as pessoas cortarem
continuamente a água umas às outras, não vão ter tempo para regar. Para ter uma ideia mais ponderada do problema, basta pensar
que milhões de portugueses regaram os campos que os sustentaram.
Os casos de morte violenta não ultrapassaram algumas dezenas. Fonte: Emmanuel Salesse
 |
| Poças do Real
|
A nossa associação elabora visitas guiadas as Poças de Germil.
Saudações Montanheiras
Carlos Moreira
Fotos de Carlos Moreira