sábado, 30 de março de 2013

Histórias e lendas sobre o homem e o lobo em Germil

Capitulo I

Lenda do Lobo da Tapada da Cegonha

Tapada da Cegonha – Germil                                                                
Reza a lenda que em meados do século XVIII num final de dia gelado do mês de Fevereiro, um homem de meia-idade habitante de Germil (na qual desconhecemos e pouco sabemos sobre a personagem), decidiu passar uma noite na Tapada da Cegonha para poder dar conta do centeio pois estávamos na altura das sementeiras de inverno. O homem com receio que os pássaros lhe devorassem durante a noite as preciosas sementes, semeadas a mão e com muito esforço e suor, decidiu pernoitar numa das extremidades da tapada ao relento, coberto por uma fina manta de linho que lhe dava a protecção necessária e até algum conforto para uma noite que se esperava longa e surpreendente. De madrugada e enquanto o homem iniciava a dormitar o ambiente em redor da sua manta de linho era ameaçador. Ao espreitar por um dos cantos da sua manta tudo a sua volta lhe parecia desconhecido devido a escuridão que se fazia sentir e só o cheiro da terra e das frescas sementes o orientaram e assim embalado pela noite cerrada e sentindo-se no lugar certo acabou por adormecer.

Sorrateiramente, sem que o homem que dormia como um cordeirinho se apercebe-se, um lobo de pelo escuro como a escuridão que se fazia sentir, calmamente e inocentemente deitou-se, acomodou-se e encostou-se a manta de linho que já a alguns quilómetros de distância farejava o seu calor numa tentativa de se poder abrigar do frio. E assim, num curto e imaginário espaço de tempo, o homem e o lobo, pernoitavam juntos e inconscientemente num vale em que o silêncio do conforto só a eles lhe pertencia.

De repente, o homem acorda. Sente um vulto pesado e quente nas suas sacrificadas costas simplesmente separadas por uma fina manta de linho. Quando o homem se apercebe de que realmente algo de estranho estava a acontecer levanta-se, sente um movimento brusco   e escuro, o lobo tinha acordado. O lobo sem jeito e desorientado com a imagem distorcida de um homem erguido, desata a correr com toda a força, com a força de um lobo e, desapareceu tal como apareceu neste vale ainda silencioso. O homem não queria a creditar mas também não esperou e mais rápido que o lobo também desatou a correr, não como o lobo silenciosamente mas aos gritos pensando que estaria a ser perseguido pelo vulto escuro que se tinha acomodado à sua fina manta de linho.

Bem ali a beirinha da tapada da cegonha e continuando em fuga por entre pedras e calhaus o homem finalmente encontrou a calçada do Varzeiro local onde a escuridão se tornou bem clara para um homem que desesperadamente corria a procura da segurança na aldeia que o viu chegar a este mundo. 

O homem ainda não se sentia seguro. Até chegar a aldeia ainda faltava um par de quilómetros e foi quando numa curta paragem para poder recuperar o fôlego, uma matilha de lobos liderada pelo lobo maestro de vulto escuro, uiva com toda a sua força e garra envolvendo o vale numa sinfonia nocturna onde o homem como único espectador deste espectáculo silenciosamente chora de vergonha pois já as portas da aldeia de Germil o homem desagua pelas calças abaixo chegando a conclusão que tinha dormido com um lobo.

Photo Source katwalkdesigns

Narrativa de João Pereira, habitante de Germil.
Texto e arranjo de Carlos Moreira 






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