quarta-feira, 18 de julho de 2012

Poças de Germil - Partilha da água para regadio

Hoje dediquei uma manhã para tirar fotos as Poças de Germil. Não sabia que existiam tantas e fiquei deliciado com o que vi e pude registar. Ainda tive a oportunidade de me refrescar nas Poças de Bem Feito junto ao Penedo Rachado pois o calor apertava. 

D. Maria de Fátima em processo de rega da sua horta
Este ano a partilha de água para regadio em Germil iniciou um pouco mais tarde que o habitual devido ao mês de Junho ter sido chuvoso, sendo assim, os habitantes de Germil andam em grande actividade de regadio desde que nasce o sol até a noitinha.  O sistema de partilha de água em Germil ainda é praticado como os antigos faziam, método este que remonta a séculos atrás.  

Levada das Poças da Relva 
Em conversa com os habitantes de Germil tive a oportunidade de saber como funciona o sistema de partilha de água mas mesmo assim queria saber mais e através de uma pesquisa na Internet descobri o processo em detalhe na qual passo a partilhar.  Texto de Carlos Moreira

Poças da Relva  
Prática do direito à água
O turno de água é organizado a partir de regras simples, cuja combinação acaba no entanto por desenhar um rol de ordenamento dos direitos que é Os que “Sabiam” e os que “Andam Baralhados”. A primeira regra é que o perímetro de regadio não é delimitado. Cada um pode regar as terras que bem entender com a sua fatia de água e para impedir que haja conflitos entre a rega e o funcionamento das poças para o uso dos quais, também existe um turno.

Poças da Relva (já vazia) 
O período de livre regadio (torna-torna)
Fora da época da rega, ou seja, do S. Miguel até ao S. João, o uso das águas da levada é livre. Mais exactamente, rege o sistema do torna-torna, o que quer dizer que em teoria a primeira pessoa a chegar pode desviar todo o caudal para o seu campo, pelo tempo que quiser. Qualquer um pode utilizar a água, e não só os que têm um direito estabelecido durante a época da rega. O sistema funciona muito bem enquanto o caudal é na prática tão abundante que pode ser dividido e utilizado por várias pessoas ao mesmo tempo, sem que uns tenham de se preocupar muito com o que fazem os outros. Ainda funciona mais ou menos enquanto as necessidades de água não são muitas e enquanto não é muito grande a tentação de cortar a água a quem já está a regar.

Acesso as Poças de Deguimbra 
Poças de Deguimbra 
Mas logo que a água começa a escassear fica bastante complicado regar correctamente uma parcela, o direito teórico de quem está a regar sendo então raramente respeitado. Isso acontece sobretudo nos meses de Junho dos anos quentes e secos: as lavouras e sementeiras do milho são adiantadas, ao mesmo tempo que o caudal da levada é reduzido. Nessa altura, passa a ser necessário vigiar o percurso da água de poça em poça, nalguns casos com três ou quatro pessoas. As parcelas mais longínquas não podem por isso ser regadas, o que constitui também uma forma de regulação. Junho é portanto o mês de maior tensão: é a época da primeira rega, da qual depende em parte a colheita, ou seja, até há bem pouco tempo, a esperança de não passar fome.

Poça de Deguimbra 
A partilha 
No dia 24 de Junho, as águas são partilhadas, o que significa que o turno de água passa a ser aplicado, e que só os que têm um direito de rega podem utilizar o sistema. Tem lugar ao  pôr do sol (sete e meia da tarde na hora legal). Caso a água já faça falta antes desta data, há a possibilidade de antecipar a partilha desde que várias pessoas o queiram de alguns dias a, raramente, vários meses. Neste caso, as poças podem sempre ficar com a água até ao dia 24 de Junho. 
Penedo Rachado  


Poças de Bem Feito  
Poças de Bem Feito 
Acontece regularmente que pessoas menos atentas ou que não moram na aldeia fiquem surpreendidas pelo adiantamento. O turno de água mantém-se sempre até ao dia 29 de Setembro e, não há memória de alguma vez ter sido noutra data. Nos Outonos mais secos, o direito é utilizado até ao último dia, nem tanto para o milho, já em vias de amadurecer, mas para favorecer o crescimento da erva debaixo dele. Num Outono normal, muitos regantes deixam de utilizar o seu direito, que outros passam a aproveitar, desenhando-se uma transição gradual para o regime do torna-torna.

Poças da Ladeira 
Poças da Ladeira 
A gestão social do turno de água
Só por si, a descrição da organização do turno de água não permite perceber como o sistema funciona na realidade. Conhecendo as regras, somos ainda incapazes de saber que forma se toma o jogo, como em qualquer desporto. É de lembrar aqui que as regras não são escritas. Não há listas de regantes, nem horário escrito completo, nem regulamento, nem nenhum encarregado de fiscalizaçãoNessas condições, é importante explicar como cada um
consegue perceber quando e durante quanto tempo pode regar, e como o sistema consegue funcionar, cada um conseguindo usufruir da sua fatia, transmiti-la ou vendê-la.

Poças de Vilares
As conversas
Um aspecto importantíssimo do funcionamento da partilha, que aqui só pode ser brevemente evocado, é constituído pelas conversas a seu respeito, nitidamente motivadas por muito mais que a importância económica da rega de hoje em dia. Os casos de pessoas que perderam o seu turno são frequentemente mencionados. Na realidade, tais acontecimentos devem ser muito raros, pois as suas consequências são graves, tanto para as plantas como para a reputação da pessoa. É aliás por essa razão que tais anedotas tomam tanta importância nas conversas. Falar nelas permite lembrar essa hipótese e ficar mais atento. As tentativas de cortar a água a contratempo, voluntárias ou não quem sabe? Também são contadas vezes sem conta e em voz bem alta, como uma forma de afirmar o seu direito, na falta de documento oficial para tal efeito. Temos indicações de que noutras circunstâncias as conversas podem ser mais ofensivas.

Poças do Real 
Desafios e entendimentos
É absolutamente generalizada, na antropologia da água, a interpretação do funcionamento dos sistemas de regadio em termos de conflitos, pequenos e grandes, como sendo um conjunto de outros comportamentos, a expressão da defesa da honra da casa e da pessoa. Não há dúvida de que isto é correcto. De facto, no Portugal rural, a água foi durante muitos anos a causa principal dos homicídios. Tamanhos casos continuam a aparecer, sempre em primeira página dos jornais. Num filme recente (“O Fim do Mundo”, de José Maria Grilo, 1992) o actor José Viana representa um velhote que mata a vizinha por coisa de uns minutos de rega. Mas este aspecto impressionante da gestão social da água acaba por eclipsar por completo um outro aspecto fundamental destes sistemas, constituído pelo que se podia chamar entendimentos. O entendimento é de facto central para o bom funcionamento de um sistema de regadio. Se os conflitos se multiplicarem, o sistema pode até estar em perigo. Por exemplo, se ninguém se entender acerca da limpeza, a levada deixará de funcionar, ou se as pessoas cortarem continuamente a água umas às outras, não vão ter tempo para regar. Para ter uma ideia mais ponderada do problema, basta pensar que milhões de portugueses regaram os campos que os sustentaram. Os casos de morte violenta não ultrapassaram algumas dezenas.  Fonte: Emmanuel Salesse



Poças do Real 
A nossa associação elabora visitas guiadas as Poças de Germil. 

Saudações Montanheiras 
Carlos Moreira 



Fotos de Carlos Moreira



1 comentário:

  1. José Alfredo Oliveira18 de julho de 2012 às 19:22

    Verdadeiramente únicas e prova do quão bonito e rico é o concelho de Ponte da Barca e as suas freguesias! Parabéns pelo trabalho Carlos! É mesmo bom poder ter acesso a tudo o que de melhor há em Germil, é um verdadeiro convite a visitar a nossa terra. Um abraco, José Alfredo

    ResponderEliminar